Pinte de açafrão (2006)

País: Índia

Duração: 2 h e 37 min

Gêneros:  Comédia, drama, história, romance

Diretor: Rakeysh Omprakash Mehra

IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0405508/

Ao longo da história e ao redor do mundo, várias revoltas da população organizada foram e continuam sendo vistas.  A busca de liberdade e independência, e a revolta contra os governantes, diga-se, a classe política, que carrega uma pecha da improbidade, desonestidade, corrupção, má gestão de recursos, entre outras, são os principais motivos de tais mobilizações. Os jovens que, na maioria dos casos, possuem espíritos revolucionários, normalmente são as cabeças pensantes e transportam para as ruas e/ou campos de batalha seus ideais patrióticos. A temática deste filme mistura ficção, realidade, revolta e coragem, para exigir justiça e um país melhor para todos. O título original do filme, “Rang de Basanti“, faz referência a uma fala patriótica indiana que significa “pinta-me de amarelo” ou “pinta-me de açafrão”, ou seja, a pessoa está pronta para entregar a sua vida em nome de uma determinada causa, normalmente uma causa maior.

A realidade aludida no primeiro parágrafo se refere a um dos tantos grupos de jovens que lutaram e deram a vida pela independência da Índia e, no caso em tela, participaram de uma passagem bastante ousada da história que ficou conhecida como “assalto ao trem de Kakori”, cujo comboio transportava uma grande soma de dinheiro da coroa britânica. Um dos soldados ingleses, impressionado com a coragem dos revolucionários, escreveu um diário sobre o fato, e, após anos, sua neta Sue toma como objetivo pessoal e profissional fazer um documentário sobre o tema. Ao chegar à Índia e conhecer alguns jovens universitários bastante irreverentes, ocidentalizados e um tanto quanto desnudados de qualquer tipo de patriotismo, ela os considera perfeitos para interpretar os revolucionários em seu filme. Eles representavam a alienada e cheia de vida juventude indiana da época do filme, e Sue precisava fazê-los “sentir” os papéis que lhes seriam dados. Infelizmente, a revolução em cada um deles só aflorou após um trágico acontecimento, no qual o governo indiano teve participação dolosa e decisiva. Naquele momento suas almas foram pintadas de açafrão, e a realidade do passado foi, aos poucos, transformando-se na realidade atual de cada um deles.

Soa como algo bastante surreal alguém, nos dias de hoje, dar a sua vida em prol de um ideal patriótico/político. Dificilmente veremos um extremismo tão grande como mostrado no filme, pois além da vida ser nosso bem mais valioso, há outras formas menos radicais de mostrar descontentamento e manifestar opiniões e pontos de vista. A juventude atual, apesar de ser bem antenada com a conjuntura de seus países, por viverem na era da informação fácil, acaba ficando meio alheia a tudo que acontece e é necessário um fato bastante grave para despertá-la e, quando isto acontece, um gigante com um potencial de mudança enorme é acordado de sua hibernação. Os jovens têm o poder de transformar as coisas, pois eles serão o amanhã de seus países e, desde cedo, devem participar dos rumos que suas nações seguem, apesar do filme mostrar apenas casos isolados de revolta e ação.

O paralelo traçado entre o passado e o presente é bem interessante. As cenas históricas são mostradas em tons de amarelo e têm como intérpretes dos mártires os atores que vivem os protagonistas da “história atual” do filme enquanto, na manifestação presente, as cores abundam e os envolvidos absorvem os ideais do passado. Trata-se de um roteiro muito inteligente, que foi feito para não deixar pontas soltas. Tudo se encaixa e há um relacionamento perfeito entre as gerações de jovens revolucionários, que são unidos por motivações distintas, mas tendo como elo um forte ideal nacionalista. O roteiro também deixa bem claro uma irresponsabilidade e rebeldia pungentes nos protagonistas, para chamar a atenção para os ares de mudança de pensamento e atitudes, o desenvolvimento das motivações, o aguçamento da revolta e a absorção de todos os riscos inerentes aos atos que porventura eles poderiam tomar com o desenrolar da narrativa. O certo é que eles amarelariam suas almas em nome da causa mais importante de suas vidas.

É até um comentário recorrente mas, como sempre, a trilha sonora marcante,  as tradicionais danças indianas e a belíssima fotografia estão presentes também nesta obra, mesmo com uma temática mais séria e impactante. Os realizadores indianos não se furtam de mostrar a cultura de seu povo para manter o padrão de seus filmes. Difícil assistir a um filme indiano que não tenha excelência nestas 3 características, e esse não é exceção à regra.

Particularmente, “Rang de Basanti”, é um dos melhores filmes indianos a que já tive a oportunidade de assistir, pois mescla dramas pessoais e coletivos, em diferentes períodos de tempo, correlacionando-os e compartilhando sentimentos separados por décadas entre as pessoas envolvidas. É um filme atemporal, bem atual e que foi feito para se adequar às mais diversas realidades ao redor do mundo, agradar aos espectadores das mais diversas formações políticas, crenças e ideais, e despertar a força revolucionária que existe em cada um de nós, para lutarmos com armas mais inteligentes e eficientes contra a podridão do “sistema” vigente em nosso país.

O trailer, com legendas em inglês, segue abaixo.

Adriano Zumba

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