Primavera, verão, outono, inverno e… primavera (2003)

Título original: Bom yeoreum gaeul gyeoul geurigo bom

Título em inglês: Spring, summer, fall, winter and… spring

Países: Coréia do Sul, Alemanha

Duração: 1 h e 43 min

Gêneros: Drama, romance

Elenco Principal: Ki-duk Kim, Yeong-su Oh, Jong-ho Kim

Diretor: Ki-Duk Kim

IMDB: www.imdb.com/title/tt0374546/


Opinião: “Se se pode definir arte através de um filme, então ei-lo”.


Um templo budista flutuando num lago de águas turvas e espelhadas e cercado por montanhas com vegetação abundante e asfixiante. Um lugar semelhante a um santuário, isolado da civilização, contendo um portão primorosamente entalhado em madeira como único acesso, com muros invisíveis, construídos com tijolos de paz, e protegido apenas pela mãe natureza. As condições perfeitas para a vida de um monge que se alimenta de solidão e busca na oração um refúgio para seu espírito. O melhor local possível para seu pequeno aprendiz crescer mergulhado na sabedoria e disciplina budistas. Este é o cenário! Percebe-se que a arte está contida em pormenores. É o presságio para um belíssimo filme.

O tempo passa e a roda da vida, sempre em seu movimento giratório frenético, leva e traz as estações do ano –  juntamente com suas peculiaridades. Cada pessoa escreve a sua história e molda a sua trajetória neste plano terreno mas, às vezes, o rumo é perdido e a tal história de cada um é inserida num roteiro imperfeito. O importante é que, apesar de tudo, enquanto houver primaveras, sempre haverá o dia de amanhã e as pessoas continuarão em busca de felicidade e resiliência para superar e suportar os obstáculos impostos pela existência. Esta idéia de continuidade, mesmo com todas as intempéries, é a mensagem principal desta obra cinematográfica magnífica.

Meditações à parte, o filme mostra o crescimento do garoto aos olhos do velho monge. Sua inexperiência para vida enquanto criança, o desenvolvimento da sexualidade enquanto adolescente e a incapacidade de lidar com os sentimentos humanos quando adulto. O jovem monge é manipulado pela vida, a qual insere obstáculos espinhosos a sua frente e, ao mesmo tempo, oferece caminhos para a superação de todos eles. Enquanto isso, as primaveras trazem ambientes claros e propícios à reflexão, os verões esquentam e acalentam as almas das pessoas, os outonos trazem serenidade e sabedoria, os invernos congelantes, as dificuldades e…

…tudo recomeça, pois a vida é cíclica – assim como as estações do ano.

As imagens deste filme falam por si próprias e isto contribui para o parcimonioso uso de diálogos ao longo da narrativa. Seu diretor, Kim Ki-duk, com a sensibilidade de um artista plástico, produziu uma obra de arte exteriorizando todo seu perfeccionismo e se preocupando com os mínimos detalhes. É uma fotografia perfeita que, ao passo que impressiona os olhos admirados dos espectadores, é mostrada de modo a inserir os personagens no contexto necessário, pois são as imagens que contam a história e levam ao entendimento. Palavras são secundárias! Além disso, a trilha sonora acompanha os sentimentos exalados por cada estação e cada passagem do filme. Ela é outro ponto alto da produção.

Além da belíssima fotografia, considerada como a oitava arte, esse filme tem alusões à música, à dança – das artes marciais -, à pintura, à escultura, à arquitetura, à literatura e é um excepcional representante da sétima arte, o cinema. Nota-se que ele engloba as 7 artes. É um filme recheado de simbolismos, que exprime arte na sua mais pura essência do primeiro ao último segundo de sua exibição. Fazendo uma analogia a um museu de arte moderna, é normal que algumas pessoas não consigam absorver, em relação a algumas obras de arte, a mensagem que ela se propõe a passar, afinal sensibilidade não é algo intrínseco de todos e realmente há obras que necessitam de muita interpretação para serem inteligíveis – pensar na mesma sintonia do autor às vezes é impossível. Enquadro o filme em tela como uma das obra de um museu deste tipo, ou seja, há uma grande chance de desagradar a alguns espectadores desavisados ou desacostumados com filmes construídos com essa pegada. Segundo um famoso compositor austríaco de música erudita nascido no século XIX, Arnold Schönberg, “se é arte, não é pra todos, e se é pra todos, não é arte”. Após esta afirmação, que possui um caráter excludente e até egoísta, mas é bastante pertinente, nada mais precisa ser comentado!

Nenhuma palavra é ouvida no trailer que está mostrado abaixo, já demonstrando que há uma maneira especial de o filme revelar as suas mensagens. Até o silêncio é artístico!

Adriano Zumba


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