Umberto D. (1952)

País: Itália

Duração: 1 h e 29 min

Gênero: Drama

Diretor: Vittorio de Sica

IMDB: www.imdb.com/title/tt0045274/

Penso que, em alguns filmes, principalmente nos antigos, é imprescindível a assimilação  do contexto da época na qual passa-se a história a fim de obter um completo entendimento da narrativa. “Umberto D.” é um desses casos. Trata-se de uma Itália “juntando os cacos” após o fim do regime fascista e tentando renascer em meio a um cenário econômico difícil e um cenário social conturbado com alto desemprego e baixos salários e pensões. O protagonista deste filme, Umberto Domenico Ferrari, é apenas mais uma das vítimas destes tempos complicados da história do país da bota.

Umberto D.” é um genuíno representante do neorrealismo italiano, um movimento cultural surgido na Itália após a Segunda Guerra Mundial e cujas maiores expressões ocorreram no cinema. Seu diretor, Vittorio de Sica, soube mostrar, com uma beleza inenarrável, a situação de um homem idoso em busca de dignidade na Roma do início da década de 50. O filme é uma homenagem a seu pai, Umberto de Sica. Mais realismo impossível.  É, sem dúvida, uma das obras-primas da história da sétima arte.

Em um roteiro repleto de simbolismos e metáforas conhecemos o sexagenário Umberto, um senhor solitário, aposentado, passando por dificuldades financeiras por conta de sua baixa remuneração e prestes a ser expulso da pensão onde vive pelas dívidas que contraiu com a proprietária. Ele só possui dois amigos: Maria, empregada da pensão e seu inseparável companheiro, o cachorro Flike. Umberto vaga pelas ruas em busca de recursos para evitar o despejo e uma eventual ida a um asilo por não ter onde morar. Neste ínterim, ele ainda tem que procurar Flike, que fugiu de casa.  Através de seu cão, Umberto descobre que, mesmo em meio a tanto desrespeito, há valores e sentimentos que suplantam qualquer tipo de obstáculos. Viver é uma dádiva!

O filme mostra o mundo como uma selva e, analogamente, os homens como seres desprovidos de humanidade os quais apenas seguem seus instintos, seguem um pseudo empoderamento proporcionado pelo dinheiro, e, são dotados de um egoísmo que beira a irracionalidade, principalmente no trato com seu semelhante. Justamente um pequeno ser vivo que foi concebido para ser irracional é o que demonstra os melhores valores que são esperados das pessoas e, na narrativa, funciona como um sustentáculo para o desesperado Umberto: seu cachorro Flike cuja lealdade a seu dono é comovente. Neste estudo de caso da alma de Umberto, Flike incorpora o melhor amigo, a “pessoa” necessária, a razão da existência. Podemos considerá-lo até como um dos protagonistas. É uma atuação canina quase humana.

Vittorio de Sica, dominando como um grande mestre o uso da linguagem cinematográfica, conseguiu exprimir, ao mesmo tempo, talvez, a maior beleza e a maior tristeza vista em um filme. A cena do cachorro esmolando e todo o contexto que cercou tal momento emociona até os mais duros corações e os últimos minutos do filme concedem à obra características líricas. São momentos ímpares que soam como versos de uma poesia inacabada chamada vida. Palavras voam ao vento ao tentar descrever este desfecho. Após assisti-lo é necessário citar apenas mais uma palavra: admiração.

O trailer com legendas em inglês segue abaixo.

Adriano Zumba

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