Pietá (2012)

Título original: Pieta

País: Coreia do Sul

Duração: 1 h e 44 min

Gêneros: Crime, drama

Elenco Principal: Min-soo Jo, Jung-jin Lee, Ki-hong Woo

Diretor: Ki-duk Kim

IMDB: https://www.imdb.com/title/tt2299842/


– O que é o dinheiro?

– O começo e o fim de todas as coisas: amor, honra, violência, fúria, inveja, vingança, morte…

Pietà – a famosa escultura de Michelangelo, que “vive” na Basílica de São Pedro no Vaticano e mostra Jesus Cristo, sem vida, nos braços da Virgem Maria. Uma obra que significa piedade – uma súplica por piedade, dada a maldade arraigada no ser humano.

Definitivamente, vivemos dias estranhos. O corpo prevalece sobre o espírito. Os valores monetários prevalecem sobre os valores éticos e morais. A individualidade prevalece sobre a comunhão. O capitalismo exacerbado, também chamado de selvagem, prevalece sobre qualquer coisa, e o sentimento de piedade, que é a compaixão pelo sofrimento alheio, cada vez mais só existe em forma de pedra, como na obra de arte de Michelangelo. O talentoso cineasta Kim Ki-duk traz para o cinema um filme sobre o dinheiro – ou o capitalismo – e suas implicações na vida das pessoas, através do modo de atuação sui generis do(s) protagonista(s), por meio do(s) qual(is) há uma desconstrução paulatina e bilateral do significado da famosa escultura, pela lei da ação e reação. O simbolismo da Pietà de Michelangelo é apenas uma antítese. Nada mais que uma figura de linguagem.

A sinopse é a seguinte: “Kang-do trabalha cobrando empréstimos devidos a agiotas. Sem família, ele vive um cotidiano brutal e solitário, empregando métodos violentos para extorquir suas vítimas: mutilando as pessoas para obter dinheiro da seguridade social. Tudo muda quando ele é abordado por uma mulher que afirma ser sua mãe.”

Segundo palavras do próprio realizador do filme, “Pietá é uma metáfora sobre o capitalismo extremo, que faz do dinheiro o único valor importante, que se impõe sobre valores e sentimentos.” A narrativa, disfarçada de agressão emocional, oferece intensa violência disfarçada de angústia, que mostra de maneira objetiva, mas com muitas metáforas e alegorias, uma anomalia da dependência que o ser humano tem em relação ao dinheiro, e consegue, mesmo num contexto tão pesado, exibir um impressionante lirismo em suas entrelinhas. É a excelência na manipulação da linguagem cinematográfica, de forma a promover um envolvimento do espectador tão extremo quanto as doses de violência mostradas sem pudores, porém sem ataques visuais. Kim Ki-duk sai de trás do manto da subjetividade, que marcou – e marca – a maioria de suas obras, e constrói dois protagonistas interessantes. O primeiro deles é Kang-do, o cobrador, o “monstro”, o personagem objetivo e solitário, que facilmente é decifrado, pois transmite até em seus atos cotidianos a necessidade de “ingerir” violência, como por exemplo, a constante aquisição de “proteína animal viva” para ser abatida por ele mesmo, como galinhas, enguias e até um coelho, cujo destino funcionaria como mais uma metáfora cinematográfica magistral do diretor. Esse comportamento é explicado inicialmente pela falta do amor materno, pois ele foi abandonado quando bebê. Após assistir ao filme, tirem as suas conclusões. O segundo protagonista é Mi-sun, que é a personagem que exala mistério, que aparece repentinamente afirmando ser a mãe de Kang-do e se submete às mais diversas formas de violência – até a sexual – advindas de seu suposto filho, em nome da aceitação. Após esse surgimento inesperado – e muitas cenas humilhantes depois -, é interessante notar o impacto e a influência do amor materno na vida das pessoas, principalmente por o paciente desse amor ser um homem frio e “sem coração”. É curioso perceber, também, as reações dos devedores à iminente mutilação, e o valor dado à vida em um contexto de desespero, pela impossibilidade de subsistência sem a força motriz do mundo, o dinheiro. A olhos vistos, o espectador recebe de presente muitos assuntos para reflexão, contudo considero dois deles como principais: a relação da miséria com a violência, e a família – ou a falta dela.

Nesse filme, que transita facilmente e perfeitamente entre a beleza e a crueldade, percebemos que os seres humanos possuem os mais diferentes graus de maldade em seus interiores, porque as motivações são infindáveis, desde um ínfimo pensamento até o instinto de sobrevivência, passando pelo egoísmo até a vingança. O capitalismo possui seus pontos positivos, mas nenhuma ideologia ou modelo econômico é à prova de falhas. O bem estar de uma população passa por um sem números de variáveis, que foge do escopo narrativo do filme em tela. “Pietá” é apenas um exemplo do monstro da desigualdade social aliado com o mal, que insiste em buscar abrigo no coração das pessoas, pela conjuntura atual.

Sempre recomendo filmes que proporcionem algum tipo de reflexão, pois o simples ato de pensar é algo que está em desuso nos dias de hoje, pelas facilidades que o mundo moderno proporciona, e com esse não poderia agir de forma diferente, porém espectadores sensíveis devem evitá-lo ou assisti-lo com a alma preparada para muitas emoções. “Pietá” pesa uma tonelada – e, infelizmente ou felizmente, não é de mármore, o material do qual a escultura tomada como base para a produção do filme é feita. É de agonia!

O trailer, com legendas em inglês, segue abaixo.

Adriano Zumba

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